Day 5 – Goodbye Johannesburg
[4ªf]
Mais uma vez acordei cedo. Queria estar no escritório às 8h, para conseguir ainda trabalhar um bocado antes da reunião das 9h (que fiz, evidentemente, no Mugg & Bean, para o meu último* “tropical breakfast”), a tempo de estar a horas para a reunião das 10h (com ligação directa à Terra – nos Head Quarters). Custou-me a levantar, mas acabou tudo em bem. Ainda desconfiei do taxista (uma pessoa acaba paranóica nesta terra!), porque (1) chegou atrasado, (2) nunca o tinha visto, (3) o táxi não era nem branco nem amarelo e (4), PIOR, não dizia SafeCab em cima. Mas afinal era rapaz honesto, apesar de não saber bem o caminho, lá nos deixou na porta certa.
A manhã passou-se bem, tão bem quanto se pode esperar de uma ligação por skype em África. Ouvia-os, razoavelmente, mas não consegui ficar até ao fim (porque inesperadamente a reunião atrasou, imagine-se!). O almoço foi simpático, fartei-me de observar os locals. Neste caso, os ricos, maioritariamente brancos. As mulheres, quase todas louras de olhos claros, usam imensa make up, e quanto mais velhas mais carregam. Sempre muito vestidas “pr’a bom”, a qualquer hora da noite ou do dia, dão a sensação de viverem num mundo artificial, ou melhor, de cristal. Os homens, altos e magros, parecem todos um Ken fora do prazo de validade (rugas), de cabelo pintado de ruivo (juro que não estou a exagerar! Acima dos 45 pintam todos!) e, nitidamente é moda aqui, passeiam-se felizes de camisa havaiana (daquelas cheias de palmeiras).
Terminado o almoço, as despedidas e mais um táxi a correr para reunião. Aqui duas coisas para contar. Até devia começar pelo táxi, mas começo pela reunião. Uma empresa giríssima, parecia uma editora discográfica dos anos 70, 80, não sei.. cheia de discos e prémios nas paredes, ao mesmo tempo moderníssima. Fui recebida numa sala gigante, de cadeiras brancas de pele, que ao lado tinha um bar (um bar, mesmo à séria, com neons e bebidas e tudo!). Aliás, nesta empresa, por todo o lado, havia cestos cheios de chocolates que era só pegar e levar. Muito fora! Adorei!
Quanto ao taxista, apareceu-me o Kingdom. Outra vez. A verdade é que já tinha viajado com ele por três vezes. Já nos conhecíamos e tudo. Muito engraçado! À porta da reunião, insistiu em ficar à minha espera para me levar ao aeroporto. Eu disse-lhe que não pagava a espera e ele aceitou o acordo. (Claro que valeu imenso a pena, pelos R100 de gorjeta no fim.).
O Kingdom contou-me a vida toda (estava imenso trânsito para o aeroporto, por volta das 17h da tarde). Viveu e estudou (alguma coisa) no Soheto e, por volta dos 25 anos, resolveu lutar pelos seus direitos. Naquela altura, viveu na pele as diferenças.. de não poder entrar em Joanesburgo sem permissão, ter autocarros separados para pretos e brancos, wc separados, etc. Segundo ele, eram tratados abaixo de cão (jura que conheceu um tipo que pisou o cão de um branco e levou um tiro, coitado do cão!). Lutou com Mandela e muitos outros “amigos”. Diz que armas tinham (e têm) facilmente, diz que lhes chegam às mãos. Mas naquela altura por vezes faltavam munições. Então, bloqueavam as estradas com os táxis colectivos deles (umas espécies de Ford Transit com muitos lugares - deve haver outra Ford que é isto, mas agora não me ocorre -, que recolhem as pessoas na rua, mas sem ter nenhuma paragem específica.. param onde os chamam, é absolutamente surreal!), levavam as chaves e deixavam-nos ali “until the Government listens to what we have to say”. (Expliquei lhe orgulhosamente que os nossos irmãos Pinto também faziam disso em Portugal, e acho que o desiludi um pouco).
Depois, o King contou-me que tem 3 filhos: de 20, 11 e 4 (deste último mostrou-me logo a fotografia que tinha como wallpaper de um dos seus telemóveis – tal como nós, têm vários, e jogam com os tarifários). Comentei as diferenças de idades, e prontamente me explicou: “não tenho dinheiro para todos ao mesmo tempo, só compro uns sapatos de cada vez. E enquanto o de 20 está a acabar os estudos, o de 11 vai entrar agora no liceu. E quando o de 11 acabar os estudos, entra o de 4.” Very smart, uh? Já não sei a que propósito, explicou-me também que para “the blacks”, como ele diz, uma mulher não pode ganhar mais do que o homem. Porque se ela ganha mais, então manda mais e isso não pode ser. Expliquei-lhe que na Europa isso já era comum. Olhou-me desconfiado. “That is not right, that is not right..”.
A espera no aeroporto também correu bem, comi um wrap (supostamente saudável) de frango, arroz e ananás. Bem bom! (Depois de estudar, por várias vezes cada uma, a pastelaria e a loja dos chocolates, não consegui resistir a uma bolacha grande, que me soube mesmo bem). No check in ainda ouvi um piropo, não sei bem em qual das mil línguas - ou serão dialectos? Help me out here Lion Queen!? – que me foi prontamente traduzido pelo simpático sorriso Pepsodente: “I was just commenting with my colleague how beautiful you are.” Eheh.. Mais à frente, não passei a segurança, sem que alguém visse o meu passaporte e, entusiasmado e culto, dissesse: “Ronaldo! Figo!”. :-p Genial!
Finalmente, o avião a caminho de Cape Town. Ao meu lado o Director de Recursos Humanos dos Caminhos de Ferro da República Democrática do Congo. Um senhor baixo, bem vestido (à moda deles), com olhar humilde e cordial, que falava tão pouco inglês que o tive de “salvar” em francês (não se estava a entender para escolher um sumo) e acabámos por ficar amigos, a conversar no meu francês já velhinho (sempre assaltado pelo fresco espanhol), mas que ele classificou de très bon!
Agora, nova aventura. Segundo ouvi dizer, Cape Town é dos sítios mais bonitos do Mundo. Vou rapidamente confirmar e amanhã aqui estarei para descrever.
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O Ronaldo lá fez o que tinha a fazer. É mesmo bom o nosso puto!
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*Ou talvez esteja a ser maçarica, porque é franchising, está por todo o lado e, muito provavelmente, também em Cape Town.